Call for Papers "Tintas. Quaderni di letterature iberiche e iberoamericane" n. 14

2025-05-13

Ultrapassar as margens: a literatura afro-ibérica e afro-iberoamericana de autoria feminina

 Tintas. Quaderni di letterature iberiche e iberoamericane, n. 14 (2025)

 

Eds. Paola Bellomi (Università di Siena; paola.bellomi@unisi.it) y Simone Cattaneo (Università di Milano; simone.cattaneo@unimi.it)

 

Em 2012, a revista Tintas. Quaderni di letterature Iberiche e Iberoamericane da Università degli Studi de Milão dedicou um dossiê monográfico, intitulado Iberoafrica (https://riviste.unimi.it/index.php/tintas/issue/view/412), às escrituras africanas em língua portuguesa e espanhola, fornecendo as bases para uma série de reflexões e estudos que contribuíram para a disseminação do debate crítico, literário e cultural, tanto no âmbito académico quanto no de divulgação. Treze anos depois daquela primeira abordagem, diante de um mundo sujeito a mudanças aceleradas, com crises, revoluções tecnológicas, derivações políticas reacionárias e reformulações de diversos paradigmas (identitários, ideológicos, estéticos, éticos, etc.), parece apropriado repensar no que está a acontecer nesse território tão complexo – muitas vezes mergulhado numa zona de sombra – representado por um conceito global de África e de africanidade que transcende os limites geográficos (Mbembe 2010, 2016). Além disso, tudo isso tem implicações evidentes nas atividades artísticas não somente de quem escreve em terras africanas, mas também daqueles que sofrem na própria pele a experiência da diáspora ou, inclusive, daqueles indivíduos afrodescendentes que encarnam um espaço intersticial de diálogo e integração, mas também de fricção, no qual afloram as contradições das sociedades às quais pertencem, gozando de um olhar privilegiado justamente pela sua condição liminar.

A partir dessas premissas, mas delimitando ulteriormente essa perspetiva, a secção monográfica do número 14 (2025) de Tintas. Quaderni di letterature iberiche e iberoamericane tem como foco principal a literatura de autoria feminina africana e afrodescendente atual nas áreas hispanófona e lusófona, num período que abrange desde as guerras de independência afro-ibéricas até o presente. Dessa forma, seria possível traçar um mapa atualizado do trabalho literário destas escritoras, observando-se tanto as vertentes estéticas quanto as suas implicações emancipatórias, (afro)feministas, políticas e desestruturadoras de preconceitos nos quais estão presentes a violenta herança colonial e as dinâmicas de submissão e silenciamento próprias de muitas etnias e comunidades africanas.

De facto, um dos elementos partilhados por autoras como Trifonia Melibea Obono, Desirée Bela-Lobedde, Lucía Asué Mbomio Rubio, Najat El Hachmi, Remei Sipi Mayo, Ángela Nzambi,  Eliana N’Zualo, Raquel Lima, Djaimilia Pereira de Almeida, Mayra Santos-Febres, Shirley Campbell, Yolanda Arroyo Pizarro, Mónica Carrillo Zegarra, Lucía Charún-Illescas, Dinha (seudónimo de Maria Nilda de Carvalho Mota) etc., é o de cultivar uma literatura que, sem deixar de lado a busca por uma originalidade formal – em não poucas ocasiões obtida através da reapropriação e reelaboração de tradições autóctones e (des)coloniais –, se alimenta de um ativismo ao qual estão engajados não somente como membros de um coletivo, mas também como artistas que enfrentam os desafios do racismo, dos direitos civis, dos direitos das pessoas LGBTQI+, dentre outros, incentivando e reformulando, além disso, o debate sobre a identidade. Neste sentido, por exemplo, seria enriquecedor investigar o conceito de “artivismo” na criação literária, analisando como a experimentação afeta as linguagens artísticas, as categorias de género e os modos literários, já que, segundo Antoni Gutiérrez-Rubí (2021: 24), «el deterioro de la política democrática […] es debido, en parte, al deterioro de las palabras, del lenguaje. Por eso, no es irrelevante ni extraño que, desde la crisis de 2008, los movimientos sociales y políticos, que van desde el 15M, Occupy Wall Street o Ni una menos, hayan explorado el activismo con una fértil renovación del lenguaje y de los formatos. Estos activismos usan la plasticidad estética de las artes (escénicas, literarias, plásticas, entre otras) para despertar, señalar, conmover y movilizar. De ahí, el nuevo palabro: ARTivismo (arte + activismo)».

A partir desses pressupostos, apresentamos algumas questões:

  • O que define a autoria feminina afro-ibérica e afro-iberoamericana?
  • Qual é a sua concreta contribuição para o desenvolvimento e inovação das linguagens literárias autóctones e globais?
  • Qual é a genealogia literária feminina presente no contexto africano e afrodescendente de língua espanhola e portuguesa?
  • Como é que a narrativa, a poesia e o teatro produzidos por mulheres afro-ibéricas e afro-iberoamericanas interagem com a realidade em que elas vivem e observam?
  • Até que ponto os movimentos antirracistas e os feminismos negros intervêm na criação literária?
  • Como se transforma o ativismo em literatura?
  • Quais são os canais de difusão deste tipo de literatura?
  • Qual é o papel da indústria cultural na promoção da literatura de autoria feminina afro-ibérica e afro-iberoamericana?
  • Quem são os leitores e as leitoras desta literatura?

Estas são apenas algumas das questões sobre as quais o monográfico propõe-se a refletir com o objetivo de contribuir para a discussão sobre o cânone literário e a sua (des)construção. Geralmente, atribui-se à literatura africana e afrodescendente uma cor – o negro – mas, no entanto, é preciso ter em mente que a paleta com que se pinta tem nuances muito mais variadas. Em um cenário semelhante, a autoria feminina poderia constituir-se como uma mão ancestral, mas rebelde que, a partir de margens cada vez mais extravasadas por escrituras arriscadas e insubmissas, amalgama pigmentos distintos para proporcionar aos leitores reflexos originais e incómodos da realidade e do presente que, sem dúvida, merecem ser observados com atenção e estudados de forma aprofundada, talvez para tentar vislumbrar também as suas evoluções futuras.

São possíveis eixos de investigação (embora não exclusivos):

  • Definição de um cânone da literatura de autoria feminina africana e afrodescendente (hispanófona e lusófona);
  • Análise dos géneros e modos literários de autoria feminina;
  • Estudo da relação entre ativismo e criação literária de autoria feminina;
  • Estudo da receção da literatura de autoria feminina africana e afrodescendente;
  • Estudo da ligação entre a literatura de autoria feminina e a indústria cultural.

 

Bibliografia

Aixelà-Cabré, Yolanda (2022), Africanas en África y Europa (1850-1996), Bellaterra Ediciones, Barcelona.

Aixelà-Cabré, Yolanda y Rizo, Elisa (eds.) (2023), Afro-Iberia (1850-1975): Enfoques teóricos y huellas africanas y magrebíes en la península ibérica, Bellaterra Edicions, Barcelona.

Akassi Animan, Clément (ed.) (2024), Migraciones, desplazamientos y movimientos africanos/diaspóricos. Historias, políticas y poéticas, Universidad del Valle, Santiago de Cali.

Álvarez Méndez, Natalia (2010), Palabras desencadenadas. Aproximación a la literatura postcolonial y a la escritura hispano-negroafricana, Prensas Universitarias de Zaragoza, Zaragoza.

Aragón, Varo, Asunción (2011), “Género, globalización y ciudadanía en la literatura africana de mujeres”, en Beatriz Domínguez García y Auxiliadora Peres Vides (coords.), Género, ciudadanía y globalización, vol. II, Alfar, Sevilla, pp. 101-109. 

Bhabha, Homi K. (1994), The location of cultures, Routledge, London/New York.

Díaz Narbona, Inmaculada (ed.), Literaturas hispanoafricanas: realidades y contextos, Verbum, Madrid.

Duraccio, Caterina (2021), “Le voci delle intersezioni. Postcolonialismo e femminismo: quando la subalternità può parlare”, Revista internacional de pensamiento político, 16, pp. 161-176.

Federici, Silvia (2021), Brujas, caza de brujas y mujeres, Traficantes de sueños, Madrid.

Gutiérrez-Rubí, Antoni (2021), Artivismo. El poder de los lenguajes artísticos para la comunicación y el activismo, Editorial Universitat Oberta de Catalunya, Barcelona.

Hollanda, Heloísa Buarque de (org.), Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais, Bazar do Tempo, Rio de Janeiro, 2020.

Jabardo Velasco, Mercedes (2008), “Desde el feminismo negro, una mirada al género y la inmigración”, en Liliana Suárez, Emma Martín y Rosalba Hernández (coords.), Feminismos en la antropología: nuevas propuestas críticas, Ankulegi, San Sebastián, pp. 39-54.

Mbembe, Achille (2001), On the Postcolony, University of California Press, Berkeley.

Mbembe, Achille (2012), Sortir de la grande nuit. Essai sur l’Afrique décolonisée, Éditions La Découverte, Paris.

Mbembe, Achille (2016), Crítica de la razón negra. Ensayo sobre el racismo contemporáneo, NED, Barcelona.

Miampika, Landry-Wilfrid y Arroyo, Patricia (eds.), De Guinea Ecuatorial a las literaturas hispanoafricanas, Verbum, Madrid.

Nfubea, Abuy (2021), Afrofeminismo. 50 años de lucha y activismo de mujeres negras en España (1968-2018), Ménades, Madrid.

Odartey-Wellington, Dorothy (2018), Trans-afrohispanismos. Puentes culturales críticos entre África, Latinoamérica y España, Brill/Rodopi, Boston/Leiden.

Raposo, Paulo (2015), Dossiê “Artivismo: poéticas e performances políticas na rua e na rede”, Cadernos de Antropologia e Arte, 4.

Ricci, Cristián H. (2014), ¡Hay moros en la costa! Literatura marroquí fronteriza en castellano y catalán, Iberoamericana/Vervuert, Madrid/Frankfurt am Main.

Ricci, Cristián H. (2021), Escrituras periféricas en castellano y catalán. El caso marroquí, Ediciones del Horto, Madrid.

Riochí Siafá (ed.), Nuevas voces de la literatura de Guinea Ecuatorial. Antología (2008-2018), Diwan Mayrit, Madrid.

Rizo, Elisa (2011), “El ‘petro-teatro’ de Guinea Ecuatorial: la mujer y su trabajo”, Publication of the Afro-Latin American Research Association, 15, pp. 66-80.

Sipi Mayo, Remei (2004), Inmigración y género. El caso de Guinea Ecuatorial, Tercera Prensa, San Sebastián.

Sipi Mayo, Remei (ed.) (2015), Voces femeninas de Guinea Ecuatorial. Una antología, Editorial Mey, Barcelona.

Sipi Mayo, Remei (2018), Mujeres africanas. Más allá del tópico de la jovialidad, Wanafrica Ediciones, Barcelona.

Sipi Mayo, Remei, Bokesa Camó, Nina y Obono Ntutumo, Melibea (2015), Baiso. Ellas y sus relatos, Editorial Mey, Barcelona.

 

Os ensaios devem atender às normas da revista (https://riviste.unimi.it/index.php/tintas/about/submissions) e não exceder 45.000 caracteres; a data-limite para o envio é 1 de setembro de 2025.